sábado, 16 de dezembro de 2006

As harmônicas da luz

A primera Colônia foi construída em um local desabitado, aquela parte da floresta amazônica mantinha ainda algumas características da exuberante natureza, mas o clima extremamente frio, causado por um conjunto da cataclismas que destruiram os Andes e permitiu a aproximação do oceano Pacífico, recheado das calotas geladas que se soltavam dos polos.
Os animais que não puderam sair dali ou não foram retirados a tempo morreram e a floresta se tornou uma mata gelada e abandonada, digna dos locais mais êrmos da Sibéria, que ironicamente sofria exatamente do contrário, de um deserto gelado passava a ser um deserto quente.
E foi exatamente nesta ex-Sibéria que decidiram construir a segunda colônia, a antiga união soviética havia sido invadida pelos chineses que restaram do grande afundamento de quase toda a região do continuente asiático e as pessoas morriam devido ao calor extremo que passou a ser uma constante naquela área.
O motivo da escolha deste lugar não foi só este, pois ali, assim como na região amazônica, havia um projeto inacabado de construção de usina atômica. Gates III não escolheu a região apenas por ser barata e desabitada, mas justamente pela existência do protótipo de um novo tipo de usina atômica que prometia funcionar sem gerar resíduos, com o reaproveitamento do próprio material atômico até o consumo máximo possível, ou seja, uma usina limpa, capaz de reaproveitar seus próprios resíduos até que estes se transformassem em particulas microscópicas incapazes de causar mal e que ainda podiam ser aproveitadas em fantásticas e microscópicas baterias que demonstraram durar centenas de anos.
O projeto destas duas usinas tinha sido abandonado quando o mundo começou a sofrer sérias transformações, decorrentes principalmente do aquecimento global e o surgimento de buracos na camada de ozônio, que tornaram algumas partes do planeta inabitáveis para humanos ou mesmo os mais resistentes dos animais.
Foi uma época terrível para o mundo, estas tragédias naturais aconteceram em uma sucessão que dizimou grande parte da população, os que sobraram ainda tiveram que lidar com a proliferação de doenças que se tornaram incontroáveis, e passaram a se ampliar de tal forma que foi necessário isolar as pessoas consideradas sãs. Na verdade o projeto de Gates III já considerava esta possibilidade, as pessoas só poderiam entrar nas Colônias depois de extensos exames médicos, isso foi muito criticado, mas depois ficou claro que foi a decisão correta porque foi das Colônias que saiu a cura para todas as doenças, quando a manipulação genética tornou-se uma realidade para a medicina. Foi relativamente fácil para os cientistas pois com o caos reinante no mundo a ética foi esquecida e através da tentativa e erro chegaram a rápidos avanços de controle genético das doenças, a ponto de alguns historiadores afirmarem que isso salvou a humanidade da extinção.
As grandes calamidades que abalaram e modificaram o mundo ocorreram quase de uma só vez, o inicio do efeito dominó foi nos EUA, o que parecia ser apenas mais um terremoto em São Francisco terminou por partir os EUA ao meio, criando um canal que ligava o Atlântico ao Pacífico, mas não era um simples canal, a faixa de terra destruída correspondia a pelo menos 2/3 do antigo território, pelo menos metade da população dos EUA morreu neste processo, ou em decorrência dele.
Esta movimentação dos oceanos causou o deslocamento das geleiras dos polos e o reflexo deste movimento, que fez ruir também os montes andinos e levou consigo todo o lado oeste da America do sul, acabou por causar uma mudança no nível dos oceanos que fez imergir quase todo o continente asiático, e completamente o continente australiano.
Os japoneses estavam preparados e antes de sua ilha sumir para sempre debaixo das águas estavam já todos em enormes petroleiros modificados para carregar pessoas com destino ao Brasil onde já tinham negociado a compra de terras do nordeste, onde iriam se alojar.
Os chineses e australianos não tiveram a mesma sorte, apenas uns 30% dos australianos conseguiu sair a tempo e se radicaram no continente africano, mas os chineses foram levados - pelo governo - a acreditar que não aconteceria nada e o gigantesco tsunami que arrasou com a China foi o responsável por eliminar 2/3 de sua população, de uma vez só, em poucos dias, gerando a maior tragédia de toda a história da humanidade, com estimativa de morte de pelo menos 800 milhões de pessoas, algo nunca visto ou imaginado.
Os que sobraram dirigiram-se para as regiões geladas da Sibéria, mas esta região começou a se transformar em um árido deserto e estava sob o efeito de um dos maiores buracos de ozônio da atmosfera, viver ali era praticamente impossível, apenas sob o solo a vida era possível, mas como manter e alimentar tanta gente enterrados em cavernas?
Europa, Africa e o Brasil foram os menos atigidos pelas catastrofes naturais, houve enchentes e pequenos maremotos que mataram pessoas e causaram grandes prejuízos mas nada comparado ao que aconteceu com os lugares mais afetados.
Quando a situação se estabilizou sobrou uma parte da antiga América do Norte que junto com o antigo Canadá eram locais impossíveis de se viver, praticamente o polo norte se mudou para lá.
Os norte americanos remanescentes começaram a ensaiar uma invasão ao México e obviamente uma guerra foi iniciada, afinal o antigo país que sempre proibiu os Mexicanos de irem para seu território e teve a ousadia de construir uma cerca elétrica que mais parecia uma cicatriz na fronteira, queria ocupar agora seu território.
Mas não houve como impedir a ocupação, apesar de muito abalados os cidadãos remanescentes dos EUA ainda dominavam uma consideravel tecnologia bélica e um acordo acabou sendo feito não só com o México mas com diversos outros países, a proposta era criar um novo continente, a América Unida, mas o Brasil não aceitou participar e com sua parceria com os japoneses já tinha entrado para o perigoso e restrito círculo de países que dominavam a tecnologia da bomba atômica e a decisão foi respeitada a força.
Na verdade a América do Sul é que deixou de existir, com os cataclismas que abalaram o continente o que restou dos outros países preferiu se juntar ao Brasil, que ampliou seu território e mudou de um país para um continente, com excessão da Venezuela e o pouco que restou da Colômbia, que preferiram se juntar a América Unida, para surpresa dos brasileiros e do mundo.
O Equador, assim como Chile foram infelizmente destruídos, o pouco que sobrou da Bolívia estava ansioso para se juntar ao Brasil pois o país já estava financeiramente arrasado e o Brasil tinha dinheiro sobrando, a Argentina perdeu quase metade de seu território, felizmente a parte mais desabitada, e esqueceram as rivalidades antigas. O Brasil também perdeu uma parte da Amazonia, invadida pelas águas geladas do Pacífico.
Paraguay, Uruguai, Venezuela, as Guyanas e o Suriname, não soferam nenhum dano.
Alguns países da América Central chegaram a ser inundados mas não houve grandes perdas de vidas humanas pois a invasão das águas foi lenta e não atingiu níveis insuportáveis.
O mapa do mundo precisaria ser redesenhado.
Foi neste clima de caos que Gates III instalou a primeira Colônia em um território que comprou do Brasil e com a promessas de que não seria incomodado, iniciou os trabalhos.
Levou 30 anos para tudo ficar pronto, mas em menos de um ano as maiores mentes do planeta já estavam vivendo na primeira Colônia e trabalhavam incansavelmente em busca de novas tecnologias e pesquisas.
O lugar era perfeito, a usina atômica funcionou corretamente e ofereceu a eles energia ilimitada, água e alimentos não faltavam no lugar e a floresta amazônica era um maná para as pesquisas, foi dali que sairam os primeiros remédios biológicos que reduziram a mortandade que dizimava os poucos que sobraram das grandes tragédias, que continuavam a ocorrer de forma mais branda, mas ainda assim devastadoras para os lugares onde ocorriam. Estes mesmos remédios faziam maravilhas no ser humano, simplesmente regeneravam células mortas e futuramente seriam a base do domínio genético total com relação ao ser humano e outros seres.
O funcionamento perfeito da primeira usina abriu os olhos de todos para a segunda usina na Sibéria, mas a maior preocupação era o perigo dos raios solares, não havia como fazer a usina funcionar a não ser na superfície e ao mesmo tempo era impossível ao ser humano viver na superfície.
Fazer escavações no local tambéms seria algo extremamente difícil, ninguém tinha uma solução e os chineses que viviam no local estavam sendo dizimados, os que não padeciam pela fome ou sede eram mortos pela radiação implacável.
Veio de um músico a solução que mudou tudo e tornou as Colônias o ultimo bastião de vida para uma humanidade que não tinha mais tempo para a guerra e aprendia - a duras custas - a ser solidária com quem estava longe, pois os humanos são solidários, mas só com o que veêm, como o mundo todo sentiu na pele a fúria da natureza, mesmo quem agora estava bem sabia o que passavam os que estavam sofrendo.
Era um músico obscuro, ninguém o conhecia e só tinha sido aceito na primeira Colônia porque havia uma quota de artistas a ser preenchida e havia poucos candidatos.
Lá ele não tinha muito a fazer e se dedicava a ocupações menores, entre elas ajudar os cientistas, já que os robôs ainda eram raros nesta época.
Durante o descanso em um destes trabalhos, percebeu que a luz de um determinado equipamento - que ele nem sabia para que servia - se modificava quando ele tocava uma pequena gaita, achou aquilo muito interessante e quando começou a mostrar o fenômeno aos amigos os cientistas se interessaram em saber porque acontecia aquilo e acabaram topando com o controle das harmônicas da luz, algo que até já havia sido citado em filmes de ficção científica, mas nunca um cientista tinha levado a sério.
Produzindo determinadas frequências de som um tipo de raio laser que era utilizado para sistemas de comunicação assumia diversos estados e as experiências demonstraram que era possível criar um campo de luz que bloqueava outras luzes e radiações. Daí para criar um escudo, muito mais eficiente do que a camada de ozônio, foi um passo.
O escudo foi criado e testado diretamente na Sibéria, funcionou maravilhosamente bem, era de baixíssimo custo e sua eficiência comprovou ser de 100%, uma vez atingida a frequência harmonica correta do som, a luz se transformava em um escudo impenetrável a outros tipos de radiação e até frequências de rádio e não demorou para alguém perceber que haviam infinitas frequências, inclusive algumas que tornavam o escudo impenetrável a sólidos.
Estava criado - fora da Ficção - o famoso campo de força, que até então residia apenas na imaginação de grandes escritores.
O trabalho foi realizado tão rapidamente que ninguém se preocupou em dar nomes aos seus descobridores, a invenção foi creditada a Gates III, que tinha um contrato de exclusividade para as patentes de tudo que fosse produzido na Colônia e nem o nome do músico que percebeu que as harmônicas de sua simples gaita eram capazes de afetar a luz é conhecido, algumas pessoas afirmam que ele era filho ilegítimo de um músico famoso que viveu no S21, conhecido por Sivuca, mas são apenas suposições, a verdade é que se não deram os créditos aos cientistas não iam se preocupar com um ajudante.
O importante é que a humanidade dominava o processo de gerar um campo de força e isso permitiu criar a segunda Colônia, muito maior que a primeira, na verdade a maior de todas as Colônias jamais criadas e que foi habitada inicialmente pelos refugiados chineses, os mais afetados pelas catástrofes.
Chegou a ser habitada por 1 milhão de pessoas.
Para lá também foram chamadas as maiores mentes do velho continente e foi dalí que sairam algumas das maiores invenções da atualidade, até que foi fragmentada em diversas outras Colônias, devido ao excesso de população.
É bom lembrar que foi a partir do controle das harmônicas da luz que foi possível a evolução dos antigos computadores para as unidades I2, já que o armazenamento de dados tornou-se praticamente sem limites com os avanços dos sistemas baseados no domínio dos hologramas, que se tornaram viáveis justamente pelo controle das harmonicas da luz.
Uma nova era se iniciava para a humanidade.

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